Computadores voluntários no mundo aceleram pesquisas - notícia publicada no Jornal Hoje em dia, por Gabriela Magalhães
Uma tecnologia que permite realocar milhares de computadores ao redor do planeta para o desenvolvimento de estudos científicos, utilizando apenas o seu tempo ocioso. A World Community Grid (WCG), tecnologia permite a doação do trabalho das máquinas, como voluntárias, contribuindo no levantamento de cálculos, dados e informações necessárias nos avanços de pesquisas nas áreas de saúde e, mais recentemente, meio ambiente. Já são mais de 250 mil pessoas inscritas e 1,5 milhões de computadores envolvidos, dedicando contribuindo com estudos sobre doenças e temas que, pelas dificuldades nos processos de conhecimento, detecção e tratamento, são muito importantes, como a AIDS, o câncer e a dengue. Outra pesquisa nacional beneficiada pela WCG foi o estudo de mapeamento de Genoms, resultado de uma parceria com a instituição brasileira Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz - Rio de Janeiro - cujos dados descobertos já são públicos e estão disponíveis para a comunidade científica mundial.
O projeto nasceu em 2003, desenvolvido pelos técnicos da área de Responsabilidade Social da International Business Machines (IBM), nos EUA, onde a tecnologia é mais difundida e conta com nove pesquisas aprovadas. O Brasil ocupa o segundo lugar, juntamente com a França, com dois estudos aceitos. Os demais países, onde o projeto acontece, ainda não conseguiram emplacar mais de um estudo cada. "Uma vez instalado, o WCG "enxerga" quando o computador está ocioso e roda os programas necessários para levantar as respostas requeridas por pesquisadores, como se fossem "pacotinhos de tarefas", feitos e operados aos poucos, para não prejudicar ou atrapalhar os usuários", observa o gerente de projetos da empresa, Bruno Rondinella.
De acordo com ele, existem basicamente duas formas de contribuir com o projeto, com acesso disponível no link www.worldcommunitygrid.org: baixando e instalando o WCG no seu computador e tornando-se um voluntário e, no caso dos projetos de pesquisas, demandados pelas organizações, realizar um cadastro se candidatando a um rigoroso processo de avaliação. "Os principais critérios analisados pela IBM, na escolha de pesquisas para a WCG, são a possibilidade de fazer o bem para a humanidade; a geração de dados que possam servir a outras pesquisas e pesquisadores e a potencialidade para instigar o voluntariado", garante a executiva de Cidadania Corporativa da IBM Brasil, Ruth Harada.
A IBM contribui com o hardware, software e serviços para a WCG, além de oferecer hospedagem gratuita, manutenção e suporte ao programa. "O tempo da resposta vai depender da complexidade da pesquisa sugerida", diz Rondinella. No caso de Minas Gerais, a resposta ao projeto sobre a esquistossomose, inédito no país, da Faculdade Infórium de Tecnologia de Belo Horizonte, em parceria com Fiocruz - Minas Gerais-, durou mais ou menos um ano entre conversas e formalização. A pesquisa terá início em 2011. Rondinella alerta sobre a importância do fator tempo, quando se trata de saúde: pode salvar vidas e reduzir e sensivelmente o investimento de recursos. "Em saúde, reduzir o tempo gasto em pesquisas é um desafio. O projeto da Fiocruz, pro exemplo, poderia demorar mais de 100 anos para ser concluídos, com o uso da tecnologia WCG, isso poderá acontecer em cerca de sete meses, ou seja, pesquisas que durariam anos podem ser processadas em meses", conclui.
E na capital mineira, a novidade é a pesquisa inédita sobre a esquistossomose, uma doença parasitária, transmitida por meio da água contaminada. Cientistas da Faculdade Infórium de Tecnologia de Belo Horizonte contam com apoio da World Community Grid para pesquisar a doença. O estudo contribui com o desenvolvimento de medicamentos direcionados ao tratamento da doença, partir da construção de modelos virtuais de proteínas e da seleção de moléculas candidatas a fármacos que combatam a esquistossomose. No Brasil, a enfermidade é causada pela espécie Schistosoma Mansoni, preocupando especialmente as comunidades ribeirinhas pobres espalhadas pelo país.
A equipe de investigação irá decodificar o Genoma do Schistosoma e identificar alvos de proteína humana para compor possíveis novas drogas.
No Estado mineiro, o estudo está sendo desenvolvido pelo Centro de Excelência em Bioinformática (CEBio) e o grupo de Genômica e Biologia Computacional da Fiocruz Minas, responsáveis pela distribuição dos processos para os computadores que compõem o IBM - World Community Grid. "Iremos também participar da análise dos resultados obtidos. Este é um trabalho com grande possibilidade de gerar novos compostos com potencial utilidade para o tratamento de uma doença tropical negligenciada, que infecta milhões de pessoas em todo o mundo. A abordagem experimental utilizada poderá também ser útil para a identificação de compostos de interesse para outras doenças também negligenciadas", informa o coordenador do CEBio e chefe do Laboratório de Parasitologia Celular e Molecular da Fiocruz Minas, Guilherme Oliveira.

Para a responsável pela pesquisa sobre o Schistosoma Mansoni, Rosângela Hickson, o trabalho ganhou forma depois que recebeu o patrocínio da IBM.
"A estimativa internacional é de que sejam mais de 11 mil óbitos por ano no mundo. Isso a coloca como a segunda parasitose que mais infecta o homem, atrás somente da malária. Por anos, chega ainda a infectar aproximadamente 200 milhões de pessoas em pelo menos 75 países de regiões tropicais e subtropicais do planeta", alerta.
As pesquisas aprovadas e realizadas por meio da tecnologia WCG partem de projetos de instituições científicas e organizações sem fins lucrativos. Um comitê formado por personalidades de instituições como Universidade Oxford, Clinica Mayi ou Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outras avalia as propostas cadastradas. O primeiro projeto inscrito foi a sobre a malária e a tuberculose. Em sequência vieram pesquisas sobre novos compostos químicos eficazes no tratamento de pessoas infectadas com VIH/SIDA, câncer, e ainda, proteínas e arroz. Nesse último caso, a investigação permitirá identificar a função das proteínas do arroz, que podem ajudar a produzir mais arroz, afastar pragas, resistir a doenças ou deter mais nutrientes.
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